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Brasília Infinita: Mercedes Urquiza, a “aventureira”

Brasília Infinita: Mercedes Urquiza, a “aventureira”
collaborated Rebeca Oliveira
photo Luara Baggi

Mercedes Urquiza deixou a Argentina e mudou-se para Brasília em 1957, quando a capital ainda nem estava no mapa. História é contada em livro recém-lançado

 

Sempre que Brasília faz aniversário é comum ouvir histórias de pioneiros que participaram da saga da construção da nova capital. São raros ou menos comuns os relatos de mulheres que viveram nesse período. Em tempos de empoderamento feminino, o GPS|Lifetime foge do óbvio a dá a palavra à Mercedes Urquiza, argentina que fez do quadradinho do Distrito Federal um lar em 1957, antes mesmo da cidade ser erguida.

“Quando cheguei, haviam apenas cinco mil pessoas na cidade e pouquíssimas eram mulheres. Talvez seja esse o motivo para que elas não apareçam nas memórias. Decidi vir motivada por um misto de querer começar uma nova vida e uma sede por aventura”, relembra.

"Apesar de sermos poucas, todas tínhamos objetivos de trabalho e de participação na construção de Brasília. Era um momento de muita solidariedade, todo mundo estava irmanado com esse objetivo que era inaugurar a capital em 21 de abril de 1960. Como um grande grupo de amigos, tanto engenheiros quanto empresários, operários, enfim, todo tipo de gente, estava torcendo pela mesma coisa", afirma.

Mercedes e Hugo no baile de inauguração de Brasília

Um presente para a capital foi o lançamento de A Trilha do Jaguar: na Alvorada de Brasília, uma "biografia" local pela visão da pioneira, publicada pela Editora Senac DF. Durante todo o mês de abril, a publicação está com 30% de desconto, em ocasião dos 58 anos de BsB. São 250 páginas separadas em 30 capítulos, que começam com a viagem de Mercedes e o marido, Hugo Maschwitz, aos 18 e 21 anos, respectivamente. Apenas com alguns pertences em um baú, deixaram Buenos Aires em uma confortável situação financeira rumo à capital, onde começaram a vida do zero.

Esse gesto, hoje tão comum entre a geração millennial, era considerado quase uma loucura à época - exceto quando o motivo do êxodo eram os horrores de guerras. "Não era algo normal, ainda mais para uma mulher. Curiosamente, recebi muitos jovens no lançamento do livro, da geração dos meus netos, interessados nas minhas vivências. Isso incentiva quem quer iniciar algo novo na vida. Mostra que, apesar de muita dificuldade, tudo é possível quando a gente acredita", defende.

 
 

Oi, Brasília! 

Ao chegarem, depois de quase 50 dias de viagem, uma nova realidade aguardava Mercedes e Hugo. Nada de luxo ou glamour. Moraram na Cidade Livre, em um barraco de madeira sem luz, sem água e sem telefone. Por anos, Urquiza e o companheiro trabalharam com a venda de material de construção. Pouco luxo para quem é tataraneta do General Urquiza, ex-presidente da Argentina. E ela nem se importou. Em curto tempo já estava estabelecida. Amava o trabalho e esforçou-se para ascender por conta própria.

"Não sabíamos o que iríamos fazer. Procuramos várias possibilidades, e descobrimos que, realmente, o material de construção era o elemento mais necessário, já que nas iam precisar de toneladas deles nas obras", recorda.

Em 1962, o casal fundou a primeira agência de viagens da nova capital, no recém-inaugurado Hotel Nacional. Foram um dos primeiros a morar na W3 Sul, em uma das 500 casas erguidas na avenida.

E o livro não é a primeira iniciativa de Urquiza para honrar a capital que a acolheu há décadas. Fazem mais de 15 anos que a pioneira promove exposições de fotos que narram a saga de Brasília.  O catálogo é composto por imagens cedidas pelo sueco Ake Borglund.

A exposição mais recente aconteceu na sede da ONU em Nova York, em outubro de 2017; e na Embaixada do Brasil em Washington, em janeiro deste ano.

Um dos nomes que mais a emocionam pode ser resumido em duas letras: JK. O ex-presidente, para Mercedes, faria milagres se hoje estivesse vivo. "Era um governante único. Jamais teremos alguém como ele", finaliza. 

 


Entrevista com Pieter Tjabbes, curador da exposição sobre Basquiat

Entrevista com Pieter Tjabbes, curador da exposição sobre Basquiat
collaborated Bruna Nardelli e Roberta Pinheiro
photo Reprodução

O sotaque ainda esconde marcas de um holandês que veio para o Brasil há alguns anos. Pieter Tjabbes, curador da mostra Jean Michel Basquiat - obras da coleção Mugrabi que inaugurou ontem, 21, no Centro Cultural Banco do Brasil, pousou em terras tupiniquis para conhecer a Amazônia. Acabou se encantando pelo país e aqui construiu sua vida. Trabalhou no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM), atuou como Gerente Internacional da Bienal de São Paulo e também foi curador de inúmeras mostras. A partir da experiência, fundou a Art Unlimited, empresa de produção cultural que reúne uma equipe responsável por todos os aspectos da curadoria e da realização de uma exposição.

A paixão pela arte começou logo cedo e surgiu da convivência com o avô, um apreciador da arte antiga. Em casa, Pieter também estava em constante contato com obras de arte. Os pais tinham um acervo e levavam o filho em frequentes visitas aos museus. Aos 15 anos, ele conta que já gastava a mesada comprando catálogos do museu da cidade.

Quando chegou a hora de escolher a faculdade, apesar de amar o universo artístico, o pai de Pieter não considerava o gosto do filho como uma profissão rentável e de sucesso. Para agradá-lo, o curador ingressou no curso de Direito. Contudo, não deixou de lado o sonho latente. Em paralelo, cursou História da Arte. O curador conseguiu conciliar os dois e chegou a concluir as duas graduações.   

Ele conta que, quando decidiu vir ao Brasil, escreveu uma carta pedindo para estagiar no Museu de Arte Moderna de São Paulo. O desejo foi aceito e desde então Pieter trabalha com o que sempre lhe inspirou. No currículo, o curador tem, além da Bienal e do MAM, exposições de grande reconhecimento do público, entre elas Mondrian e o movimento De Stijl, O mundo mágico de Escher e Rembrandt e a arte da gravura.

Várias fases fazem parte do processo de criação de uma mostra. A concepção, fazer orçamentos, planejar a reprodução. Para Pieter, talvez a mais custosa seja convencer os grandes museus e colecionadores para emprestarem as obras. A exposição do Mondrian, por exemplo, levou anos de convencimento. Neste processo, o curador mostra todo o projeto, o material gráfico e convida as pessoas a conhecerem os espaços do Brasil, as transportadoras e os aeroportos.   

Durante sua passagem por Brasília para inaugurar a mostra de Basquiat, o curador conversou com o GPS|Lifetime:

Como nasce um projeto de exposição?

A gente trabalha muito em parceria com o Banco do Brasil. Eles têm possibilidade de patrocínio e um espaço bom para expor. Para nós, é sempre um desafio, porque o Banco já espera projetos grandes. Mas, também faço exposição de artistas mais jovens. Faço muito por afinidade minha e também de artistas que eu acho que estão na hora de mostrar para o Brasil, como é o caso do Basquiat. A arte dele reverbera até hoje e tem a similaridade entre a situação dos Estados Unidos no final dos anos 1970 e início de 1980 e nossa situação aqui. É um artista que tem uma conexão com os jovens e o fato de nunca ter tido, aqui, uma exposição grande dele são todos elementos oportunos. Outros assuntos, às vezes, surgem e caem na graça e quem decide é a grade de exposição. A gente começou com a exposição do Escher que foi um sucesso enorme de público, mas era uma exposição extremamente interativa. Isso é uma coisa que a gente implantou aquela vez, lógico numa proporção que não dá para fazer com todos os artistas, mas nos mostrou que se você dá um passo em direção ao público, você tem um retorno muito grande. As pessoas reconhecem e vem.

As exposições da Art Unlimited costumam, realmente, ter aspectos lúdicos, interativo e educativo. De que forma, isto é importante no projeto?

Acho que a gente tem o dever de atrair novos públicos. Apesar do Brasil ter uma visitação muito grande nas exposições de um modo em geral, o potencial de pessoas que nunca foram ao museu é gigante. Se você compara com EUA e Europa, a porcentagem das pessoas que frequentam museus ainda é muito pequena. Então, a gente quer atingir essas pessoas. A arte é algo que educa, que forma personalidades, é essencial na vida. Se a gente consegue proporcionar isso para mais pessoas é ótimo.

O que trouxe da sua experiência de trabalho na Bienal?

A Bienal é justamente o que eu não faço agora. É um trabalho muito grande, com muitas informações e muitos artistas ao mesmo tempo. Fiz isso com muito gosto, mas acho que para o público é mais difícil. Você não tem uma linha e, em uma visita de duas horas e meia, você tem que assimilar várias linguagens diferentes. Outra coisa, numa Bienal, você faz tudo em largos passos e largos movimentos, então o cuidado com pequenos textos, com uma etiqueta, com a pintura das paredes, a iluminação, por natureza do evento, você não consegue. Quando a gente saiu da Bienal, a primeira coisa que falei foi "vamos fazer poucas exposições e muito bem feitas". Isso é uma coisa que satisfaz. A bienal satisfaz de outra forma, pelo agito, pela adrenalina. Hoje consigo mergulhar mais, dar vazamento para o meu lado intelectual de historiador de arte, de pesquisar e fazer uma escolha que dá jus a carreira do artista.

Como escolheu as obras que compõem hoje a exposição do Basquiat e o que é imperdível?

Fizemos uma leitura cronológica para facilitar, tendo em vista que é a primeira vez que muitos estão diante de trabalhos do Basquiat. Tem que ser didático. Ver um pouco como o artista cresceu, os elementos que voltam na obra. A gente teve a sorte de poder escolher dentro de uma coleção que tem obras primas de todas as épocas do artista. A coleção Mugrabi é a maior do mundo. Dizer o que é mais importante é difícil. O público pode escolher. O que recomendo muito é vir com o tempo. Tem um filme que não é obrigatório que mostra de forma muito legal onde este artista estava vivendo, e o ator principal é o próprio Basquiat.