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São Paulo de Niemeyer: um constante diálogo entre obra e público

São Paulo de Niemeyer: um constante diálogo entre obra e público
collaborated Marcella Oliveira
photo Léo Orestes

Seis anos após a morte de Niemeyer, ele segue o mestre capaz de integrar a obra ao cotidiano. Nos anos 50, ele participou da reinvenção do Brasil para o mundo por meio de suas curvas arquitetônicas. O cenário foi São Paulo, tornando acessível, inclusive, a arte de Di Cavalcanti e Cândido Portinari 

 

Início da Avenida Paulista. Na lateral do edifício Ragi, na praça Oswaldo Cruz, um mural colorido feito pelo artista paulistano Eduardo Kobra contrasta com o cinza do céu e com o concreto dos prédios em volta. Arte e arquitetura se integram perfeitamente, como bem gostava de fazer o personagem ali retratado: Oscar Niemeyer. O gigante arquiteto – literalmente, afinal, são 52 metros de altura e 16 metros de largura – parece observar o centro de São Paulo. 

Niemeyer não era paulista. Como um bon vivant carioca da gema, talvez se irritasse com o trânsito dali. Desembarcou na capital paulista no auge de seu vigor criativo: a década de 1950. Era um período de experimentações. Quando a cidade já completava quatro séculos, ganhou um terreno de esquina bem no centro para levar sua arquitetura moderna em ebulição. Era seu debut na maior cidade do Brasil. O edifício Montreal.

Depois vieram os edifícios Copan, Califórnia, Triângulo e Eiffel. Foram encomendados pelo Banco Nacional Imobiliário e, com a demanda, Niemeyer chegou a abrir uma filial do escritório carioca em São Paulo, na Rua 24 de Maio, comandado pelo arquiteto Carlos Lemos – fechado em 1957, quando Niemeyer foi dedicar-se totalmente ao projeto de Brasília. Com terrenos bem localizados e muito valorizados, o foco do banco era, claro, o lucro. O que, na época, muito desgastou o arquiteto, que era comunista. 

Diferente de projetos em que tinha a liberdade espacial, nessas construções em São Paulo ele estava limitado pelos prédios em volta. "Em comum no trabalho do Niemeyer foi sempre tentar não fazer a fórmula fácil. Errando ou acertando, a grande qualidade dele foi buscar com que a arquitetura fosse uma surpresa para quem está vivenciando o espaço. Ele surpreende, você gostando ou não”, analisa o arquiteto e professor da Universidade de São Paulo, Francisco Spadoni. “Um grande talento espacial, um esforço de buscar o inusitado dentro do convencional. Lidou com a arquitetura de forma que se construísse um diálogo com o público”, acrescenta. São construções anteriores às famosas obras de Niemeyer na capital paulista: o Museu da América Latina, o conjunto arquitetônico do Parque do Ibirapuera e o sambódromo, já dos anos 1990 e 2000.

Cinco edifícios modernos e ousados, como seu criador. Prédios privados com uma relação pública com a cidade. Compõem uma cena urbana na região que parece ter o relógio acelerado. Um vai e vem daqueles que não observam por onde passam. O morador de São Paulo ou seu visitante podem não saber do seu valor arquitetônico. Nada incomum para uma grande metrópole. Mas, assim como a expressão no gigante mural artístico da Avenida Paulista, Oscar Niemeyer se faz presente, discretamente. Faz parte da cidade. Sua poética sempre esteve em criar, inovar e deixar marcas.

A São Paulo de Niemeyer

 

Edifício Montreal
Av. Ipiranga, 1.284

Niemeyer já era famoso e respeitado, mas não foi fácil ter o alvará da prefeitura para a construção naquele ano de 1951. Os edifícios de esquina na época deviam ter um recuo de dois metros nos andares superiores. E Niemeyer gostava de desafiar. Fez um relatório gigantesco para justificar seu projeto. “Procuramos solução em que predominasse proporção e unidade, o que nos levou a evitar o recuo de que trata o referido comunique-se, uma vez que o mesmo cortaria as fachadas, desproporcionando irremediavelmente todo o conjunto com a agravante – o que nos parece mais grave – de  deixar ostensivamente à vista para a praça, a empena do prédio vizinho”. Meses depois, conseguiu o alvará para a construção na Avenida Ipiranga  com a Rua Conceição, hoje Cásper Líbero. Já era janeiro de 1952. Além disso, desafiava os engenheiros com suas ondulações. Não gostava de linhas retas. “O que me atrai é a curva livre e sensual”. Diz sua famosa frase. Projetou a fachada com brises soleil, técnica para controlar a entrada da luz usando lâminas de alumínio. O arremate artístico fica pela parceria com Di Cavalcanti, que fez três painéis em mosaico para o hall. Tudo ficou pronto em 1954. 

Edifício Copan
Av. Ipiranga, 200

Paralelamente à construção do Edifício Montreal, Niemeyer foi contratado para fazer outro projeto também no centro. Na mesma rua, usando a mesma técnica da fachada de brises soleil, criou um edifício em curvas que se tornaria cartão-postal da cidade, ganharia prêmios e seria o queridinho dos arquitetos. Era o Copan e seus 1.160 apartamentos – alguns deles hoje disponíveis para aluguel no Airbnb, se quiser vivenciar uma noite bem paulistana. “Vista alucinante”, diz alguns dos anúncios. E não é propaganda enganosa. Pode ser do terraço, onde se vê toda a cidade de São Paulo, ou de baixo, na calçada ou na rua, de onde o olhar para o céu é hipnotizado pelas curvas de um prédio de concreto. Seu projeto mais internacional na capital paulista. Projetado em 1951, além das unidades residenciais e de uma área comercial no térreo, o original ainda previa um hotel com 600 apartamentos, que não chegou a ser feito. Só ficou pronto em 1961. Niemeyer teria se desinteressado do projeto pela demora na execução, e o arquiteto Carlos Lemos concluiu a obra.

Edifício Triângulo
Rua José Bonifácio, 24

Numa época em que Niemeyer usou muito os artifícios da arquitetura moderna, um terceiro prédio com brises surgiu, o Edifício Triângulo. Mas foi modificado e acabou sendo feito todo espelhado. Um painel de pastilhas de vidro criado pelo artista Di Cavalcanti se revela em sua entrada principal – tombado, em 2004, pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo. O grande atrativo na época do lançamento do projeto foi a localização. Super central, fica perto da Praça da Sé. “Para homens de negócios”, dizia o anúncio do prédio comercial. Seguiu a legislação da época e tem os últimos três andares recuados, por essa característica chegou a ser chamado de bolo de noiva. Tem um total de 18 pavimentos, com uma escada que gira no sentido horário até o 15o andar e depois no sentido anti-horário. Com um formato bem destoante dos que estão em sua volta, no estilo art decó, lembra o famoso prédio de Nova York que aparece em muitos filmes, o Flatiron Building (ferro de passar, pelo seu formato). Foi inaugurado em 1955.

Edifício e Galeria Califórnia
Rua Barão de Itapetininga, 255

O concreto, os cobogós e as colunas em V caracterizam o Edifício e Galeria Califórnia, concluído em 1955. Em mais uma parceria artística, Cândido Portinari criou um mural de mosaico de 250 metros quadrados no saguão, nas cores cinza, preto e vermelho. E diz-se que Di Cavalcanti projetou o jardim suspenso. O prédio tem formato em L, com uma fachada para a Rua Barão de Itapetininga e outra para a Dom José de Barros. Dez andares em um lado, treze do outro. Foi projetado assim porque a ordem era aproveitar ao máximo o espaço. Tinha até um cinema no subsolo, o extinto Cine Barão – que ainda virou um cine pornô e bingo, fechando definitivamente em 1990. Um projeto, talvez, menos imponente do que os outros. Seu diferencial é um térreo de livre circulação, quase que uma extensão da calçada.

Edifício Eiffel
Praça da República, 177



Um bloco central e duas abas laterais mais baixas formam o Edifício Eiffel, inaugurado em 1956. Parece um livro aberto. Niemeyer foi responsável por projetar os 54 apartamentos duplex, um dos primeiros de São Paulo. Os dormitórios ficam no piso inferior – Niemeyer assim o criou para garantir a tranquilidade e o silêncio nos quartos. Cobogós e janelões completam o ar moderno do edifício, permitindo ventilação e entrada de luz. O térreo é livre, cheio de comércio, com circulação de pedestres, integrando a obra ao cotidiano da cidade. Mas o melhor? A vista para o verde da Praça da República.

 

O personagem do modernismo

Se usando o concreto armado Oscar Niemeyer deixou sua marca pelo Brasil e mundo com seus projetos, hoje, seis anos após a sua morte, seu nome se mantém internacionalmente como referência na arquitetura moderna. Segundo Francisco Spadoni, a arquitetura foi o instrumento usado pelo governo brasileiro, na Era Vargas, para se posicionar para o mundo. "No final dos anos 30, o Brasil adotou uma estratégia de inventar um Brasil que não existia, de não ser mais um país colonial. Aproveitou a crise europeia do pós-guerra e investiu na arquitetura moderna, e Niemeyer foi um dos nomes desse período. Ele nasceu de uma circunstância que deu base para a geração dele", comenta. Dos anos 40 até a construção de Brasília, o grande portfólio de Niemeyer, a arquitetura brasileira foi mensalmente publicada em revistas do setor no mundo. "Depois mudou o momento político e mundial. Mas Niemeyer se manteve como esse homem referência de modernismo, com um laço internacional muito forte", explica o professor. Os bons relacionamentos, profissionais e políticos, ajudaram Niemeyer a construir sua personalidade. "Ele teve um amparo muito grande do Estado. Era o arquiteto preferido de Lúcio Costa, uma parceria que rendeu inúmeras obras para governos. Isso o ajudou a ter a importância pública que ele tem, somando-se a um talento inegável", analisa Spadoni. Em 1988, o arquiteto ganhou o prêmio internacional Pritzker, da Fundação Hyatt, uma espécie de Nobel da Arquitetura, pelo conjunto de sua obra. Um homem internacionalmente inesquecível. 

 





Nota Legal: quem tem veículo ou imóvel poderá resgatar crédito

Nota Legal: quem tem veículo ou imóvel poderá resgatar crédito
collaborated Agência Brasília

Projeto do governo de Brasília aprovado pela Câmara Legislativa permite ainda que consumidor com isenção tributária receba o valor em conta-corrente ou poupança

 

O programa Nota Legal terá mais uma opção de resgate para os contribuintes que têm veículo ou imóvel. Eles também poderão retirar os créditos acumulados em dinheiro.

A mudança está no Projeto de Lei nº 2.158, de 2018, de autoria do governo de Brasília, aprovado pela Câmara Legislativa na segunda-feira, 17.

Por ora, os consumidores que possuem tais bens só utilizam o benefício para abater valores no Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores (IPVA) e no Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU). A partir da sanção, a quantia poderá ser transferida para conta-corrente ou poupança.

O mesmo valerá para quem tem isenção tributária. Por exemplo, pessoas com deficiência isentas do pagamento do IPVA. Nesse casos, era comum que elas perdessem os créditos do programa.

Outra mudança será a retirada da indicação de créditos para terceiros. Ou seja, da possibilidade de informar o CPF de outra pessoa para transferir valores.

De acordo com a Secretaria de Fazenda, a medida visa combater fraudes. Em janeiro, 347 contas do programa foram hackeadas. “O crédito indo apenas para o CPF do consumidor fecha a porta da fraude”, opina o secretário da pasta, Wilson de Paula.




De acordo com ele, os mecanismos de segurança do programa foram aprimorados. “Temos monitoramento de altos volumes de transferências, de veículos e imóveis que recebem créditos de titulares diferentes e de recuperação de senha”, lista.

Em 2018, mais de 356 mil consumidores resgataram R$ 57,03 milhões em créditos para diminuir os custos com IPTU e IPVA. Outros 16 mil indicaram a conta-corrente ou poupança para depósito — somando R$ 6,6 milhões.

Nota Legal foi criado em 2008 com o objetivo de estimular o consumidor a exigir o documento fiscal nas compras de mercadorias e serviços. A intenção, com isso, é contribuir para o combate à sonegação e munir o governo de informações essenciais à cobrança regular de impostos.